Suinocultura cresce e setor busca caminhos para atrair e reter profissionais
Suinocultura cresce e setor busca caminhos para atrair e reter profissionais

A suinocultura brasileira vive um momento de expansão. Em 2025, o país alcançou o maior número de suínos abatidos da série histórica do IBGE, iniciada em 1997. Foram 60,69 milhões de animais, crescimento de 4,3% em relação ao ano anterior. Mato Grosso do Sul esteve entre os estados que impulsionaram esse resultado, com acréscimo de 324,64 mil cabeças no período.
Somente no primeiro trimestre de 2026, o Brasil abateu 15,27 milhões de suínos, 5,5% acima do registrado no mesmo período de 2025.
O crescimento da atividade, no entanto, vem acompanhado de um desafio que não está apenas dentro das granjas ou nos indicadores produtivos: está nas pessoas. Encontrar profissionais, desenvolver novas competências e, principalmente, criar condições para que permaneçam na atividade tornou-se uma questão estratégica para o futuro da cadeia.
O assunto esteve no centro da mesa-redonda “Como atrair, desenvolver e reter profissionais na suinocultura”, realizada na última quinta-feira (17), durante o 8º Fórum de Desenvolvimento da Suinocultura de Mato Grosso do Sul, em Dourados. Realizado pela Associação Sul-Mato-Grossense de Suinocultores (Asumas), o evento reuniu diferentes elos da cadeia produtiva para discutir desafios e perspectivas do setor. O debate sobre mercado de trabalho contou com a participação do superintendente do Senar/MS, Lucas Galvan; do diretor executivo da Agroceres PIC, Alexandre Rosa; do coordenador corporativo de suinocultura da Aurora Coop, Sérgio Carvalho; e do suinocultor e diretor da Asumas, Milton Bigatão, com mediação do médico-veterinário Leandro Trindade.
A discussão acompanha uma preocupação já identificada nacionalmente. Trabalho apresentado no 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura, em 2025, aponta a escassez de mão de obra qualificada como um dos desafios da atividade e relaciona o problema a fatores como rotatividade, necessidade de qualificação contínua, dificuldade de atrair novas gerações e gestão de pessoas ainda pouco estruturada em parte das propriedades.
A mudança profissional
Para Lucas Galvan, uma combinação de fatores ajuda a explicar o cenário atual. Ao mesmo tempo em que o mercado demanda novas habilidades, o agronegócio precisa incorporar trabalhadores que nem sempre possuem origem ou experiência no meio rural e administrar diferenças entre gerações dentro das propriedades.
“A turma que está chegando ao mercado de trabalho não está mais trabalhando só por conta do salário. Se ela não estiver conectada com o propósito do negócio, vai buscar outras oportunidades. Precisamos gastar energia e tempo na contratação, conversar com esse profissional e trazê-lo para a cultura da empresa”, afirmou.
Essa transformação ocorre em um ambiente no qual o trabalhador também passou a ter mais possibilidades de escolha. Salário continua sendo fundamental, mas divide espaço com outros fatores: condições de moradia, benefícios, conectividade, ambiente de trabalho, desenvolvimento profissional e perspectiva de carreira.
Na avaliação de Alexandre Rosa, diretor executivo da Agroceres PIC, o desafio deixou de estar concentrado apenas em conseguir candidatos. “Atrair não é o problema. A retenção é o desafio”, resumiu durante o painel.
Para ele, investir em liderança é parte essencial dessa mudança. As granjas passaram a reunir profissionais de diferentes gerações, perfis e trajetórias, o que exige líderes capazes de ouvir, compreender as diferenças e apresentar perspectivas de crescimento. Na Agroceres PIC, conforme relatou durante o Fórum, as mulheres já representam cerca de 60% da equipe das granjas da empresa.
Tecnologia muda funções e exige novas competências
A transformação tecnológica adiciona uma nova camada a esse cenário. Automação, equipamentos, sistemas de monitoramento e ferramentas digitais tendem a reduzir atividades repetitivas e de maior risco, mas também modificam as competências exigidas de quem trabalha na produção.
Para o suinocultor Milton Bigatão, isso não significa necessariamente o desaparecimento dos postos de trabalho, mas uma transformação das funções dentro das granjas.
“A automação diminui tarefas repetitivas e que trazem riscos aos funcionários, mas o trabalho não vai acabar. A pessoa precisa se capacitar”, destacou.
A mudança ajuda a reposicionar a própria discussão sobre formação profissional. Se a tecnologia evolui continuamente, aprender uma função uma única vez já não é suficiente. O trabalhador precisa atualizar conhecimentos ao longo da carreira, enquanto produtores e gestores precisam desenvolver competências que anteriormente não eram vistas como parte central da gestão de uma propriedade rural.
Formação para um mercado em transformação
É nesse ponto que a educação profissional assume papel estratégico. Para o Senar/MS, acompanhar as transformações do mercado significa não apenas preparar novos trabalhadores para ingressar na atividade, mas também requalificar quem já está nela.
Segundo Lucas Galvan, as formações precisam ser cada vez mais dinâmicas e conectadas às competências demandadas pelo setor. Uma das estratégias está na oferta de capacitações mais específicas e de menor duração, permitindo que o profissional construa sua trajetória de conhecimento continuamente.
“A todo momento eu preciso me requalificar e entender o que o mercado está me exigindo. O comportamento é um dos principais fatores que buscamos mudar nos treinamentos, porque os conhecimentos técnicos podem ser incorporados, desde que a pessoa entenda a importância da mudança, da aquisição de novos conhecimentos e das relações interpessoais”, explicou.
Na suinocultura, o Senar/MS possui sete títulos de cursos relacionados à atividade e capacitou mais de 2 mil pessoas nos últimos quatro anos. A atuação também avança para além do conhecimento técnico, incorporando orientação em gestão, organização da propriedade, indicadores e desenvolvimento das pessoas.
Uma das iniciativas construídas a partir das demandas do próprio setor é a Trilha do Conhecimento, em parceria com a Asumas, que organiza possibilidades de formação para quem pretende ingressar na suinocultura ou para profissionais que já atuam nas granjas e buscam avançar na carreira.
Visão de futuro
A perspectiva para os próximos anos é de uma suinocultura cada vez mais tecnológica, eficiente e orientada por dados. Mas o avanço das máquinas não elimina o componente humano. Ao contrário, aumenta a necessidade de profissionais preparados para operar em um ambiente produtivo mais complexo.
Para as propriedades, isso também significa compreender que a disputa por trabalhadores acontece dentro de um mercado muito mais amplo. No campo, a suinocultura concorre por profissionais com outras cadeias produtivas; fora dele, precisa tornar a carreira rural atrativa para pessoas que nem sempre tiveram qualquer vínculo anterior com o agro.
Na avaliação de Galvan, o próximo nível dessa disputa vai além dos elementos tradicionalmente considerados em uma contratação.
“Assim como a empresa não olha mais apenas o currículo, o trabalhador também não olha somente o salário. Precisamos pensar no que vem depois, quais perspectivas de crescimento profissional, condições de trabalho e motivadores vamos oferecer para atrair e manter essas pessoas”, afirmou.
Se novas tecnologias permitem produzir mais e melhor, preparar lideranças, qualificar continuamente os profissionais e construir ambientes em que as pessoas enxerguem possibilidades de desenvolvimento passa a fazer parte da mesma equação da produtividade.
Assessoria de Imprensa do Sistema Famasul – Ana Palma




















