Após décadas sem estudar, irmãs encontram no Senar/MS a chance de aprender a ler
Após décadas sem estudar, irmãs encontram no Senar/MS a chance de aprender a ler

“Não pode ter tristeza aqui, tem que ter só alegria”. É assim que Elaide Oliveira, de 70 anos, descreve as horas que passa junto com sua irmã, Maria Alves, de 68 anos, na sala de aula do Programa Despertando do Senar/MS, em Anastácio. As irmãs, que tiveram uma infância marcada pelas dificuldades e trabalho pesado no campo, agora vivem pela primeira vez a experiência de serem alunas. “Tá a mil maravilhas, bom demais”, afirma.
Com a mochila nas costas e o caderno na mão, Maria e Elaide encontraram no curso a oportunidade de finalmente realizarem o sonho de aprender a ler e escrever, que, por mais de seis décadas, esteve apenas esperando por uma chance. “Nunca é tarde, quem entrar não vai se arrepender”, complementa Maria.
Esta é a história do Transformando Vidas de hoje. Confira:
Quando crianças, Maria e Elaide gostavam de estudar, mas a rotina no sítio era de muito trabalho. O dia começava cedo, com as tarefas da roça, e os estudos acabaram ficando em segundo plano.
“O negócio era clarear o dia, pegar a limazinha, o esmeril, afiar a enxada, jogar nas costas e partir pra roça.”, explica Maria.
Além da rotina pesada na roça, a distância entre o sítio e a escola dificultava ainda mais o acesso das irmãs aos estudos. Para chegar à sala de aula, era preciso enfrentar uma caminhada de praticamente um dia de viagem a pé, entre ida e volta. A logística, somada às tarefas do campo, fez com que Maria e Elaide deixassem a escola de lado ainda na infância.
“Tinha que sair de madrugada para chegar na hora, daí, nós nunca estudamos. Meu avô queria nos colocar para estudar, mas meu pai não quis, tínhamos que roçar e capinar o abacaxi”.
Por não conhecerem o alfabeto, as únicas letras que as irmãs decoraram foram as que formam seus próprios nomes.“O nome, graças a Deus a gente sabe fazer, mas porque nós treinamos. A gente pediu para o meu tio ensinar, compramos um caderno e íamos de noite lá. Botava uma lamparinazinha dentro de uma caixinha, pegava o trecho e ele fazia para nós”, conta Maria.
Apesar de não terem dificuldades para assinar documentos, a falta de estudos sempre foi um obstáculo para as irmãs. Maria destaca que quando se mudaram para Anastácio, perceberam que até mesmo nas tarefas mais simples do dia a dia, precisavam de ajuda para entender.
“Às vezes, você vai em um posto e a gente vê o papel na parede, não sabe e tem que ficar se humilhando para os outros. A gente já de idade, às vezes fica chateada de ouvir: ‘Essas velhas não estudaram por quê? Porque não quiseram?’, e a gente não morava na cidade, se não nós tínhamos estudado”.
Uma nova chance de recomeçar
A mudança para a cidade, já depois de adultas, reacendeu um sonho antigo que as duas ainda guardavam e que, pela falta de oportunidade, nunca conseguiram realizar. Decididas a finalmente aprenderem a ler e escrever, Maria e Elaide começaram a frequentar as aulas do Programa Despertando do Senar/MS e encontraram o apoio que precisavam para estudar. “Nós estamos aprendendo pouco a pouco, graças a Deus. A professora ensina, tem paciência e explica qual letra está faltando”, conta Elaide.
No curso, as irmãs também conheceram outros trabalhadores rurais que, assim como elas, não tiveram a chance de terminar os estudos. Os colegas de sala se tornaram amigos e, entre uma aula e outra, sempre arrumam um tempo para conversarem e trocarem ideias. Segundo Elaide, o companheirismo nas aulas é o que deixa tudo ainda mais leve e divertido.
“Meu sonho é aprender a ler, porque eu já sei um pouquinho, mas o pouquinho que eu sei ainda é pouco, eu quero aprender mais. Se Deus quiser a gente tem esperança de que vamos conseguir, os companheiros não desanimando a gente vence e segue pra frente”.

Maria conta que o seu filho ficou tão feliz com a notícia de que ela e a irmã voltaram a estudar, que liga diariamente para saber como estão indo às aulas. “Todo dia ele me liga duas ou três vezes. Eles estão muito felizes e faceiros que a gente tá aqui.”.
Com paciência e dedicação, aos poucos, as irmãs estão aprendendo a escrever e conquistando a tão aguardada independência para lerem tudo que sempre sonharam. Para Maria, nunca é tarde para aprender e mesmo diante das dificuldades, sempre há tempo para os sonhos, por mais distantes que eles pareçam.
“Eu quero aprender para quando eu for fazer minhas caminhadas e passar um caminhão consiga ler. Eu não consigo ler tudo, mas alguma coisa eu já tô entendendo, nós vamos aprender sim. A gente pede que quem não sabe corra atrás, nunca é tarde”, finaliza Maria.
Despertando - O programa tem carga horária presencial de 243 horas por etapa, com aproximadamente 81 dias úteis de duração, com encontros três vezes na semana, em turma de, no máximo, dez alunos. O Despertando é dividido em duas etapas: Inicial, para introdução da leitura, escrita da língua portuguesa e noções de cálculos matemáticos básico. E a Intermediária que aprimora conhecimento na interpretação, produção de texto e cálculos matemáticos mais complexos.
Nas duas etapas, são desenvolvidos temas complementares que abordam consciência da saúde física e mental, valorização da cultura do nosso estado, além de debate e divulgação de assuntos referentes ao Agro.
Para saber mais procure o Sindicato Rural do seu município.
Assessoria de Comunicação do Sistema Famasul - Ana Carla Souza*
*Estagiária sob supervisão de Michael Franco




















